Esquissos

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ESQUISSOS
v. LEAL BARROS


que horas são?

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que horas são? amanhã morro todo nos teus braços.


naquele dia rasguei a cidade

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naquele dia rasguei a cidade para te ver. os teus olhos molhados pela chuva dos nossos sonhos procuravam os passos do meu dia. no silêncio do quarto dizias-me - olha-te - e eu, sem me encontrar, baloiçava-me nas árvores do medo. depois beijavas-me e aproximavas a minha cabeça do teu peito. desprendias o suspiro da paixão e dizias-me - olha-te - e eu, exausto da minha luta, não via o fim da estrada sinuosa do meu passado. então, com a paciência dos anjos e a verdade dos heróis, dizias-me - amo-te.


dói-me quando calas a noite

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dói-me quando calas a noite e os teus braços são cansaço e a tua mão é solidão. dói-me quando do fundo dos teus olhos soltas o néctar salgado que me queima a pele e me rasga a alma. dói-me meu amor. seria o olhar que vigia a planície estéril dos teus medos, seria o vento que te enxuga o rosto, seria a sombra dos teus passos, seria meu amor.


ao meu irmão

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fomos um passado duro no sangue e no ventre que nos uniu. por vezes choravas. e eu, queria romper a válvula que te congestionava o coração. depois sorrias. então, guardava a ternura do teu olhar e lutava e desafiava o destino e inventava-o de novo para que sorrisses sempre. nunca fui a força meu irmão. fui sempre alívio, fui sempre antídoto. hoje, ao ver-te assim livre, sei que a verdade és tu. eu, serei sempre a silhueta por de trás do véu e os meus olhos serão sempre o reflexo dos teus, incógnitos, do outro lado do espelho.



aquele foi um acordar difícil. sempre te disse que não era fácil rasgar-me as veias para que todo o veneno injectado ao longo das noites estéreis saísse. tu esperaste sempre. e disseste-me naquela manhã que um dia haveríamos de abraçar o mar e correr como loucos até ao ponto mais distante do infinito. sinto-me limpo. dá-me a tua mão, de hoje em diante nem o tempo nos detém.


hoje procurei os teus braços

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hoje procurei os teus braços. nunca te disse que o amor tranca a voz do meu instinto com a chave incómoda do medo. foi de manhã que procurei os teus braços.


estavas sentada no café

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estavas sentada no café. as tuas pernas violentamente cruzadas amarravam por completo a vida como se nenhum olhar permitisse um resto de sonho. os teus olhos baloiçavam, lentamente, ritmados. não tocavam nada. lentamente, ritmados. eu não sabia o que te dizer. amanhã talvez encontres o fascínio. e eu, eu estarei feliz por ti.


conheço-te as sedas

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conheço-te as sedas, prevejo nelas a tua morte. escuto o teu impulso descontrolado e talvez porque entre em ti percebo a ausência do poema. olho-te naquele rio, fria, tremendo por compaixão, iluminando sem forças a luta que te fez resistir nas décadas do nada. morreste feliz, tal como eu morrerei, porque acreditaste em tudo – no branco, no liso, na água e no vento. ele sofreu no dia em que caíste. lembrou-se do casaco enrugado. não. da mortalha enrugada.



um dia hei-de escrever-te como as crianças.



estava no cimo da montanha mais livre do mundo quando o vento voltou da linha desfocada que separava o céu do mar. o vento contou-me que apelidavam esse traço enevoado de horizonte e que nele viviam apenas, o meu amor, o teu coração e o cabelo dela.


no primeiro dia

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no primeiro dia quiseram matar-me pelo sangue. exterminaram-me os genes e decidiram-me o futuro como se o céu sucumbisse ao destino sem resistência. no segundo dia quiseram matar-me pela alma. arrastaram-me sobre a teia da loucura e do domínio como se a terra engolisse todo o veneno de uma só vez e o mar não fosse antídoto suficiente. das duas vezes ressuscitei. ouve-me, faz três invernos que não choro. entre a vida e a morte escolhi sorrir.



sabes, naquele muro havia a vida e eu de nada sabia. talvez ele me tivesse falado durante o tempo do feitiço querendo que o nosso sangue se infiltrasse entre as pedras e as segurasse como o vento prende a velhice. eu sempre o senti lá, esse muro pertence-me eternamente. há dias em que me canta de novo, seduz-me, grita-me as horas em que terei a cabeça deitada no teu peito. e depois eu sonho morrer assim, com a orelha mais perto de deus.


o ar era de um poente cansado

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o ar era de um poente cansado e na pele restava-lhe o perfume de um longo sorriso crioulo. voltando-se disse-me bom dia e nesse instante nada mais houve para além daquele olhar cor de prata em desafio constante ao infinito. eram os olhos mais belos que tinha visto. que deus cruel os haveria criado assim, como duas estrelas imensamente vivas e incandescentes refugiadas atrás de um espelho baço? hoje, quase choro ao lembrar aquela face nostálgica, quase choro ao lembrar que aqueles olhos nunca se viram, nunca contemplaram o seu brilho por serem cegos. como a beleza morre quando não há vida que a observe.


e como a moabita

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e como a moabita deitaste-te a meus pés e ali dormiste toda a noite. sonhavas com o vento empurrando as pás gigantes no alto da ternura e como o sol te levava para uma terra sem pecado onde apenas o silêncio existia. olhava-te entregue ao sonho, imaginando as horas que nos guardariam o medo fazendo-nos pulsar o sangue mais forte do que bate o coração. então, fechei os olhos acreditando muito. e foi como um ar quente aconchegado ao ouvido que foi dito: se Ló lhe escapou também foi por amor.


aos meus amigos

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há horas em que o silêncio da noite escorre-me pelas mãos como um suor frio carregado de uma estranha solidão. afasta-me irrecuperavelmente de tudo, até ao ponto em que a noite é toda escura e os anjos não são mais do que sombras mortas diluídas num imenso mar de negro. nessas horas em que sorvo o meu próprio veneno é difícil escutar os ecos que me lançam em forma de coração. então eles, os amigos, gritam mais alto, juntam-se em coro misturando todas as cordas para que a voz seja una, grave e forte. no fundo do tímpano entreabre-se uma porta e suavemente o estribo começa a entoar a melodia. agarro-me a cada nota com muita força e começo a construir o lençol que me leva até eles. quando o som é já tão próximo e o ar quente das suas vozes é uma brisa de amor na minha face, choro. e de lágrimas no rosto atiro-me nos seus braços pedindo-lhes desculpa pela minha imensa surdez.


a rapariga do café

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a rapariga do café não é bonita. o corpo desenha-lhe uma proporção estranha como se toda a timidez do mundo habitasse de modo preciso no elo que lhe curva as vértebras. mantém os olhos sempre baixos, em direcção ao chão, e do horizonte chega-lhe apenas o raio da bondade que lhe ilumina o sorriso. na sua quietude, leva-o de mesa em mesa por entre o amuo das crianças e a voz grossa do patrão. não me lembro de um só dia em que o não desenhasse nos lábios ou o tivesse esquecido no pátio da tristeza. a rapariga do café talvez seja uma estrela ao longe, situada no terceiro quadrante do olhar, daquelas que a lua vadia permite brilhar nas noites muito escuras. por serem raras, guardo-as com muito cuidado, até ao dia em que cinco minutos antes de partir, as vou contar e lembrar-me de como fui feliz.


sabes o que temo amor?

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sabes o que temo amor? temo o abrir do mar no segundo livro, temo o anjo do semblante caído, temo o olhar triste da criança, temo a força da terra, temo as horas que me roubam de ti. não temo amor, não temo a maldade dos homens, o espinho da rosa mais bela, o fim do sol, não temo o escárnio dos velhos, o olhar do diabo. não temo porque os mato sorrindo o teu corpo.


ensina-me a saber esperar

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ensina-me a saber esperar.



perguntas-me porque já não te falo de mim. amor, quando entendemos a beleza do mundo, o sofrimento abandona-nos levando debaixo do braço o caderno negro do nosso egoísmo. não te inquietes, no dia em que te sentares junto daquela oliveira, escuta-a com muita atenção, talvez ela te conte algo sobre mim.



diz-me, não achas que o céu amanhece mais cinzento, que a pele já mal respira, que as cores dos rostos não brilham como dantes? diz-me amor, conta-me a razão do desfocar dos olhos, explica-me porque não sorriem os lábios, fala-me do que leva as folhas a caírem mais cedo, diz-me amor, não te ouço, fala-me de perto. foi o que disseste, falta bondade no mundo, foi isso amor?



assassinaram o campo de margaridas, assassinaram-no, amor. e tenho medo que hoje, ao passar por ele, a terra morta não me fale de ti.


deitei-me na cama vazia

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deitei-me na cama vazia, abri o livro, e a cama vazia, fechei o livro. olhei a parede, lisa, imensa, e os lençóis de ontem ainda com o teu corpo gravado, enrugados e a lembrar-me a tua ausência. ausência amor. e o quarto amor? um gigante sem alma, um desajuste, a cama cada vez maior, vazia, sem ti, vazia. esta noite não me pertence amor, esta lua não é nossa, teima em ser só minha, não é nossa amor. e eu não quero, e eu não quero amor.


um dia disseste-me

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um dia disseste-me que havia magia no mundo e eu não acreditei. foram tempos de cegueira esses, quando me oferecias a paz e eu nem o azul recebia. depois, amor, fui rasgando as toalhas e os guardanapos do café, pintando-os com a minha caligrafia coxa, tentando que cada palavra aproximasse o meu olhar do teu. foram esquissos, ensaios para chegar a ti. hoje, rabiscar em toalhas de café não faz sentido. e o mundo amor? o mundo continuará a falar dos cascos das árvores, do riso das crianças, da ternura dos velhos, da alegria leve dos campos ao fim da tarde e da vida apaixonada das cidades. foi tudo isso, amor, foi magia que enraizaste em mim.


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